B1

Construções impessoais em espanhol

Construcciones Impersonales

Este artigo faz parte da árvore gramatical de espanhol no Settemila Lingue.

Em resumo

Em espanhol, hay que + infinitivo exprime uma obrigação geral: Hay que estudiar más significa «É preciso estudar mais». Se puede + infinitivo indica possibilidade ou permissão, e es necesario/importante/posible permite avaliar uma ação sem dizer logo quem a realiza. Quando se introduz uma pessoa com que, expressões de necessidade, importância ou possibilidade normalmente pedem o subjuntivo, o modo verbal usado aqui para apresentar algo como necessário, desejável ou possível, e não como um facto afirmado: Es importante que descanses — «É importante que descanses».

Visão geral

Num aviso à entrada de um museu, numa recomendação de saúde ou numa conversa sobre costumes locais, muitas vezes interessa mais a regra do que a pessoa que a cumpre. As construções impessoais permitem dizer «É preciso reservar», «Pode-se pagar com cartão» ou «Diz-se que vai chover» sem identificar quem deve reservar, quem paga ou quem transmite a informação.

Este conjunto de estruturas ganha especial importância no nível B1: ajuda a dar conselhos, interpretar instruções e apresentar opiniões de maneira menos pessoal. Para quem fala português, a lógica é familiar, mas a proximidade entre as línguas pode esconder diferenças. O português «Tem que estudar mais», por exemplo, não se deve transformar automaticamente numa expressão espanhola com tener se a intenção é apresentar uma obrigação geral.

Nem todas as estruturas deste artigo são impessoais no mesmo sentido técnico. O sujeito é o elemento sobre o qual se faz uma afirmação e com o qual o verbo normalmente concorda. Algumas frases não têm sujeito; noutras, uma ação inteira ocupa esse lugar. O ponto comum, para o uso quotidiano, é não colocar uma pessoa específica no centro da frase.

Como funciona

1. Obrigação geral com hay que

A estrutura é hay que + infinitivo. O infinitivo é a forma do verbo que se encontra no dicionário, como estudiar, comer e salir — «estudar», «comer» e «sair».

  • Hay que estudiar más. — É preciso estudar mais.
  • Para entrar, hay que presentar el documento de identidad. — Para entrar, é preciso apresentar o documento de identificação.

Hay que não identifica uma pessoa: apresenta uma necessidade que se aplica à situação. Pode incluir quem fala, quem ouve ou qualquer pessoa nas mesmas circunstâncias. O contexto resolve isso.

Compare com tener que + infinitivo, que permite indicar o responsável:

  • Hay que llamar al médico. — É preciso ligar ao médico.
  • Tengo que llamar al médico. — Tenho de ligar ao médico.
  • Tenemos que llamar al médico. — Temos de ligar ao médico.

Na primeira frase, o importante é a necessidade de telefonar. Nas outras duas, sabemos quem tem essa obrigação. Não se deve acrescentar yo ou nosotros a hay que para indicar o responsável; nesse caso, escolhe-se uma construção pessoal.

O verbo haber muda conforme o tempo, mas mantém-se no singular quando é impessoal:

Espanhol Português Valor
Hay que reservar. É preciso reservar. Necessidade atual ou geral
Había que reservar. Era preciso reservar. Necessidade numa situação passada
Hubo que reservar otro hotel. Foi preciso reservar outro hotel. Necessidade surgida num episódio passado
Habrá que reservar. Será preciso reservar. Necessidade futura
Habría que reservar. Seria preciso reservar. Sugestão ou necessidade apresentada com cautela

Não confunda hay com hay que. Hay dos entradas disponibles significa «Há dois bilhetes disponíveis»; Hay que comprar dos entradas significa «É preciso comprar dois bilhetes». A palavra que, nesta estrutura, não leva acento.

2. Possibilidade e permissão com se puede

Se puede + infinitivo indica que algo é possível ou permitido:

  • Se puede entrar. — Pode-se entrar.
  • Aquí se puede pagar con tarjeta. — Aqui pode-se pagar com cartão.
  • No se puede aparcar delante de la puerta. — Não se pode estacionar em frente da porta.

A interpretação depende da situação. Num regulamento, no se puede costuma indicar proibição. Numa explicação prática, pode indicar impossibilidade: No se puede abrir la puerta porque está bloqueada — «Não se consegue abrir a porta porque está bloqueada».

A negação coloca-se antes de se: no se puede, não se no puede. Na escrita corrente, se fica separado do verbo conjugado, isto é, do verbo cuja forma indica tempo e pessoa.

O mesmo modelo aparece com outros verbos:

  • Aquí se trabaja de noche. — Aqui trabalha-se à noite.
  • En este barrio se vive bien. — Neste bairro vive-se bem.
  • Se dice que el restaurante va a cerrar. — Diz-se que o restaurante vai fechar.

Nestes usos, se não significa «a si próprio». Não se descreve alguém a fazer algo a si mesmo: fala-se de pessoas em geral ou de um responsável não identificado.

3. Avaliar uma ação com es necesario, es importante e es posible

Estas expressões permitem apresentar uma ação como necessária, importante ou possível. Há duas estruturas principais:

Estrutura e exemplo em espanhol Português Como interpretar
Es necesario + infinitivo: Es necesario descansar. É necessário descansar. A necessidade é apresentada em geral.
Es importante + infinitivo: Es importante escuchar. É importante ouvir. Avalia-se a ação em si.
Es posible + infinitivo: Es posible llegar en tren. É possível chegar de comboio. Apresenta-se uma opção viável.
Es necesario que + subjuntivo: Es necesario que vengas. É necessário que venhas. A necessidade diz respeito a uma pessoa identificável.
Es importante que + subjuntivo: Es importante que escuchen. É importante que ouçam. Espera-se uma ação de determinadas pessoas.
Es posible que + subjuntivo: Es posible que llueva. É possível que chova. Apresenta-se um acontecimento como possível, não como certo.

Com o infinitivo, não se identifica diretamente quem realiza a ação. Com que, introduz-se uma oração, ou seja, uma parte da frase organizada em torno de um verbo. Esse verbo pode indicar quem age pela sua terminação, sem um pronome explícito:

  • Es importante aprender. — É importante aprender.
  • Es importante que aprendas. — É importante que aprendas.

A segunda frase dirige a recomendação a tú, mesmo sem escrever esse pronome. Também é possível nomear outra pessoa: Es importante que Ana aprenda — «É importante que a Ana aprenda».

Não se trata apenas de uma regra de «pessoas diferentes». Em Es posible que llueva, não há uma pessoa a realizar a ação. O subjuntivo aparece porque a chuva é apresentada como possibilidade.

Para falantes de português, o paralelo costuma ajudar: «É necessário que venhas» e Es necesario que vengas seguem uma lógica semelhante. Ainda assim, é preciso aprender as formas espanholas: vengas, hagas e puedas correspondem a «venhas», «faças» e «possas», mas não se formam copiando as terminações portuguesas.

4. O verbo fica sempre no singular depois de se?

Não. É importante distinguir dois padrões, mesmo que ambos possam parecer impessoais no uso quotidiano.

Na construção impessoal com se, não há sujeito que faça o verbo variar. Usa-se a terceira pessoa do singular, a forma correspondente a «ele/ela»:

  • Se vive bien aquí. — Vive-se bem aqui.
  • Se busca a los responsables. — Procuram-se os responsáveis.

Na passiva com se, aquilo que recebe a ação funciona como sujeito. «Passiva» significa precisamente que o foco está em quem ou no que recebe a ação, não em quem a pratica. O verbo concorda com esse elemento:

  • Se vende una casa. — Vende-se uma casa.
  • Se venden casas. — Vendem-se casas.

Em casas, temos um substantivo, uma palavra que nomeia algo. Como está no plural e funciona como sujeito da passiva, o verbo também vai para o plural.

Em Se busca a los responsables, a expressão com a designa pessoas determinadas e funciona como objeto direto, isto é, o elemento sobre o qual recai a procura. Não é o sujeito; por isso, o verbo permanece no singular. Este uso de a diante de pessoas é uma diferença importante em relação ao português.

Para começar, memorize o contraste: Se buscan empleados — «Procuram-se funcionários»; Se busca a los empleados que faltan — «Procuram-se os funcionários que faltam». A concordância será retomada na parte avançada.

Exemplos em contexto

Estes exemplos mostram as construções em avisos, recomendações e conversas. As traduções privilegiam uma formulação natural em português.

Espanhol Português Observação
Hay que estudiar más. É preciso estudar mais. Recomendação geral, sem responsável explícito
Para renovar el pasaporte, hay que pedir cita. Para renovar o passaporte, é preciso marcar atendimento. Procedimento obrigatório
No hay que llevar comida; la cena está incluida. Não é preciso levar comida; o jantar está incluído. Ausência de necessidade
Se puede entrar. Pode-se entrar. Permissão
¿Se puede pagar en efectivo? Pode-se pagar em dinheiro? Pergunta sobre uma possibilidade prática
No se puede fumar en la terraza. Não se pode fumar na esplanada. Proibição
En esta empresa se trabaja por turnos. Nesta empresa trabalha-se por turnos. Organização habitual do trabalho
Es importante aprender. É importante aprender. Avaliação geral de uma ação
Es necesario que traigas el original. É necessário que tragas o original. Necessidade dirigida a quem ouve
Es importante que los niños duerman bien. É importante que as crianças durmam bem. Ação esperada de um grupo
Es posible que el paquete llegue mañana. É possível que a encomenda chegue amanhã. Possibilidade, sem garantia
Se dice que van a ampliar el horario. Diz-se que vão alargar o horário. Informação atribuída a outras pessoas
En la recepción se venden entradas. Na receção vendem-se bilhetes. Passiva com concordância no plural
Se atiende a los pacientes por orden de llegada. Os pacientes são atendidos por ordem de chegada. Impessoal com pessoas introduzidas por a

Erros comuns

1. Misturar hay que com uma obrigação pessoal

  • Incorreto: Yo hay que estudiar más.
  • Correto: Tengo que estudiar más. — Tenho de estudar mais.
  • Também correto, com sentido geral: Hay que estudiar más. — É preciso estudar mais.

Porquê: hay que não aceita um sujeito pessoal. Para dizer quem tem a obrigação, usa-se, por exemplo, tener que na forma adequada.

2. Retirar o que da expressão de obrigação

  • Incorreto: Hay estudiar para el examen.
  • Correto: Hay que estudiar para el examen. — É preciso estudar para o exame.

Porquê: hay sozinho exprime existência. A obrigação exige a sequência hay que + infinitivo.

3. Usar o indicativo onde se apresenta uma necessidade

  • Incorreto: Es necesario que vienes mañana.
  • Correto: Es necesario que vengas mañana. — É necessário que venhas amanhã.

Porquê: vienes está no indicativo, o modo usado normalmente para apresentar factos. A expressão es necesario que pede o subjuntivo porque apresenta uma exigência, não afirma que a pessoa já vem.

4. Tratar qualquer construção com se como singular

  • Incorreto na escrita cuidada: Se vende entradas.
  • Correto: Se venden entradas. — Vendem-se bilhetes.

Porquê: nesta passiva, entradas é o sujeito plural. Embora se ouçam construções sem concordância em algumas variedades, a forma com concordância é a escolha segura na escrita de referência.

5. Fazer concordância com pessoas introduzidas por a

  • Incorreto: Se buscan a los responsables.
  • Correto: Se busca a los responsables. — Procuram-se os responsáveis.

Porquê: com o objeto direto introduzido pelo a pessoal, a construção é impessoal. O plural de responsables não determina a forma do verbo.

6. Confundir falta de necessidade com proibição

  • Inadequado para indicar proibição: No hay que traer comida; está prohibido.
  • Mais claro: No se puede traer comida; está prohibido. — Não se pode trazer comida; é proibido.

Porquê: no hay que pode significar «não é preciso» ou, conforme o contexto, dar uma recomendação negativa. Para uma proibição inequívoca, no se puede é mais seguro. Isso não torna no hay que sempre errado em conselhos negativos: No hay que perder la calma significa naturalmente «Não se deve perder a calma».

Notas de uso

Uma formulação geral pode dirigir-se a alguém em particular

Hay que ordenar la cocina — «É preciso arrumar a cozinha» — não nomeia o responsável, mas pode ser um recado dirigido a quem está a ouvir. A gramática deixa a pessoa em aberto; a situação pode torná-la perfeitamente identificável.

Por isso, uma construção impessoal não garante delicadeza. Dita num tom crítico, pode soar a censura. Para incluir claramente quem fala na responsabilidade, Tenemos que ordenar la cocina — «Temos de arrumar a cozinha» — pode ser mais adequado.

Formas frequentes em avisos

Se puede, no se puede, se permite e se prohíbe aparecem em instruções. Se prohíbe fumar significa «É proibido fumar» e tem um tom mais regulamentar. Já Aquí no se puede fumar — «Aqui não se pode fumar» — é natural numa conversa.

O infinitivo também pode surgir sozinho num aviso: No fumar — «Não fumar». É útil reconhecer essa forma, mas ela não é uma frase completa com se.

Se dice que não confirma a informação

Se dice que el edificio está en venta — «Diz-se que o edifício está à venda» — atribui a informação a uma origem não identificada. Pode introduzir um rumor, uma opinião difundida ou uma informação repetida por várias pessoas. Não equivale a confirmar que o edifício está realmente à venda.

Apesar dessa distância, é habitual usar o indicativo depois de se dice que: está, não automaticamente esté. A ideia de «informação incerta» não basta, por si só, para escolher o subjuntivo em qualquer estrutura espanhola.

Para além do básico

1. Nem toda a expressão com es ... que pede subjuntivo

A escolha depende do sentido da expressão principal. Necessidade, avaliação e possibilidade favorecem o subjuntivo; afirmações de certeza ou evidência normalmente levam o indicativo.

Espanhol Português Razão da escolha
Es posible que esté cerrado. É possível que esteja fechado. Possibilidade: subjuntivo
Es importante que esté abierto. É importante que esteja aberto. Avaliação: subjuntivo
Es evidente que está cerrado. É evidente que está fechado. Evidência afirmada: indicativo
No es seguro que esté abierto. Não é certo que esteja aberto. Certeza não afirmada: subjuntivo

Assim, não convém decorar «depois de que, usa-se o subjuntivo». Que liga partes da frase; a expressão que vem antes ajuda a determinar o modo verbal.

2. Necessidade e possibilidade no passado

Quando a avaliação passa para o passado ou é apresentada como hipótese, o verbo depois de que também pode mudar:

  • Era necesario que llegaras antes. — Era necessário que chegasses mais cedo.
  • Sería importante que hablaras con ella. — Seria importante que falasses com ela.
  • Es posible que hayan salido ya. — É possível que já tenham saído.

Llegaras e hablaras são formas do imperfeito do subjuntivo, usado aqui para uma necessidade passada ou uma proposta hipotética. Hayan salido é uma forma composta: combina o auxiliar haber, que ajuda a formar o tempo verbal, com salido, o particípio de salir, uma forma que aqui apresenta a saída como já concluída.

Estas estruturas não significam todas a mesma coisa: na última frase, a possibilidade é avaliada agora, mas a saída pode já ter acontecido.

3. Concordância em se puede com elementos no plural

Compare:

  • Se puede viajar sin coche. — Pode-se viajar sem carro.
  • Se pueden comprar los billetes por internet. — Os bilhetes podem ser comprados pela internet.

Na primeira frase, fala-se de uma possibilidade geral e mantém-se o singular. Na segunda, los billetes funciona como sujeito de uma passiva com se; na escrita de referência, o verbo vai para o plural: se pueden comprar.

Não se deve, portanto, decorar se puede como um bloco sempre invariável. Em Se puede ayudar a los vecinos — «Pode-se ajudar os vizinhos» —, a presença do objeto pessoal com a mantém a construção impessoal e o singular.

4. Outras frases sem sujeito específico

Há construções impessoais que não levam se:

  • Llueve mucho en noviembre. — Chove muito em novembro.
  • Hace frío en esta habitación. — Faz frio neste quarto.
  • Había mucha gente en la estación. — Havia muita gente na estação.

Com haber no sentido de existência, mantém-se o singular na norma de referência: había mucha gente e había muchas personas — «havia muita gente» e «havia muitas pessoas». O mesmo princípio explica había que salir — «era preciso sair» —, nunca uma concordância de haber com as pessoas que precisavam de sair.

Há ainda frases como Llaman a la puerta — «Estão a bater à porta». O verbo no plural deixa o agente, isto é, quem pratica a ação, sem identificação. É uma alternativa útil na conversa, mas não se deve confundi-la com a impessoal com se, que exige o singular quando não há sujeito.

Sugestões de prática

  1. Transforme obrigações pessoais em regras gerais. Parta de Tengo que presentar el pasaporte — «Tenho de apresentar o passaporte» — e escreva Hay que presentar el pasaporte — «É preciso apresentar o passaporte». Faça o mesmo com três tarefas reais e observe que informação sobre o responsável desaparece.
  2. Escreva dois avisos e duas recomendações. Use no se puede para proibir uma ação, se puede para permiti-la, es importante + infinitivo para dar um conselho geral e es importante que + subjuntivo para o dirigir a uma pessoa. Traduza depois para português sem seguir palavra por palavra.
  3. Treine a concordância com pares curtos. Compare Se venden libros — «Vendem-se livros» — com Se ayuda a los estudiantes — «Ajuda-se os estudantes». Antes de escolher o verbo, pergunte se há um sujeito plural ou pessoas introduzidas por a que recebem a ação. Esta verificação é mais fiável do que contar as palavras no plural.

Conceitos relacionados

  • Pré-requisito: Hay: existência em espanhol — reveja como hay indica que algo existe e distinga esse uso da obrigação expressa por hay que.

Pré-requisito

Hay em espanhol: como dizer que algo existeA1

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