Perífrases verbais em espanhol
Perífrasis Verbales
Este artigo faz parte da árvore gramatical de espanhol no Settemila Lingue.
Em poucas palavras
Uma perífrase verbal é um conjunto de verbos que funciona como uma unidade: um deles apresenta a ação e o outro indica, por exemplo, repetição, início ou probabilidade. Em espanhol, volver a llamar significa «voltar a ligar», dejar de fumar, «deixar de fumar», e acabar de llegar, «acabar de chegar». A palavra de ligação faz parte da construção: é preciso aprender volver a, dejar de, acabar de, ponerse a, deber de e llegar a, sempre seguidos de infinitivo.
Visão geral
O português oferece uma boa porta de entrada para este assunto. Já usamos «voltar a tentar», «deixar de trabalhar» e «acabar de sair» sem pensar na estrutura. O espanhol dispõe de construções muito próximas, mas nem todas têm a mesma distribuição ou os mesmos sentidos. Em particular, ponerse a não se traduz sempre por «pôr-se a», e llegar a nem sempre corresponde a «conseguir».
Neste conjunto de nível C1, o desafio não é apenas formar frases corretas: é perceber a maneira como o falante apresenta uma situação. Há diferença entre dizer que alguém tentou, que voltou a tentar, que começou a tentar e que chegou a tentar. A ação pode ser a mesma, mas a perspetiva muda.
As seis construções centrais deste artigo usam o infinitivo, a forma que dá nome ao verbo, como hablar («falar»), comer («comer») e vivir («viver»). Outras perífrases usam o gerúndio, a forma que apresenta uma ação em desenvolvimento, como hablando («falando»). Essa relação será retomada no final, sem perder de vista as seis estruturas principais.
Como funcionam
A estrutura comum
O verbo auxiliar, isto é, o verbo que acrescenta uma indicação à ação principal, recebe as marcas de pessoa e tempo. O segundo verbo permanece no infinitivo. Entre os dois surge a preposição, uma palavra de ligação como a ou de.
Auxiliar conjugado + ligação própria da construção + infinitivo
Por exemplo, Volvimos a hablar significa «Voltámos a falar». A forma volvimos indica quem realizou a ação e situa-a no passado; hablar continua no infinitivo. Não se conjugam os dois verbos separadamente.
| Construção em espanhol | Equivalência em português | Valor principal |
|---|---|---|
| volver a + infinitivo | voltar a fazer algo | Repetição ou regresso a uma situação |
| dejar de + infinitivo | deixar de fazer algo | Interrupção ou abandono |
| acabar de + infinitivo | acabar de fazer algo | Passado recente, na leitura mais frequente |
| ponerse a + infinitivo | começar a fazer algo; pôr-se a fazer algo | Entrada numa atividade |
| deber de + infinitivo | dever estar, ser ou fazer algo | Suposição ou probabilidade |
| llegar a + infinitivo | chegar a fazer algo; conseguir fazer algo | Resultado alcançado ou ponto extremo |
Volver a: repetir ou retomar
Volver a indica que algo acontece outra vez. Não se limita a decisões voluntárias: também pode apresentar o regresso de um estado ou de uma condição.
- Volvió a llamar. — «Ele voltou a ligar.»
- Después de la reparación, la calefacción volvió a funcionar. — «Depois da reparação, o aquecimento voltou a funcionar.»
A construção não exige uma deslocação. Volvió a llamar não significa necessariamente que a pessoa voltou a algum lugar para telefonar. O verbo volver perdeu aqui o sentido literal de movimento e passou a marcar repetição.
A negação também é importante: No volvió a llamar significa «Não voltou a ligar». Houve uma chamada anterior, mas não uma nova chamada no período de que se fala.
Dejar de: interromper ou abandonar
Dejar de apresenta o fim de uma atividade ou a passagem de uma situação para outra. O contexto determina se se trata de uma interrupção momentânea ou de uma mudança duradoura.
- Dejó de fumar. — «Ele deixou de fumar.»
- Dejó de llover a medianoche. — «Deixou de chover à meia-noite.»
Não é necessário que alguém controle a ação: a chuva também pode cessar. Por isso, não se deve reduzir esta construção à ideia de uma decisão pessoal.
Com negação, o efeito muda: No deja de hablar significa «Não para de falar». Já numa recomendação, No dejes de visitar el mercado equivale a «Não deixes de visitar o mercado» ou «Visita o mercado sem falta». Aqui não se pede que a pessoa continue uma visita já iniciada: recomenda-se que não perca essa oportunidade.
Acabar de: uma ação muito recente
Com o auxiliar no presente, acabar de costuma indicar uma ação que terminou pouco antes do momento em que se fala:
- Acabamos de llegar. — «Acabámos de chegar.»
- La médica acaba de salir. — «A médica acabou de sair.»
É um contraste útil para quem fala português: o espanhol usa normalmente o presente do auxiliar para esta leitura, enquanto em português é muito natural usar o passado, como em «acabou de sair». Não se deve, portanto, escolher mecanicamente o tempo espanhol a partir da forma portuguesa.
No imperfeito, um tempo que apresenta uma situação passada como enquadramento, a referência passa a ser outro momento do passado: Acababa de salir cuando llamaste significa «Tinha acabado de sair quando ligaste».
A ideia de «recente» depende do contexto, não de um número fixo de minutos. Além disso, a construção também pode significar terminar uma ação. Essa diferença será desenvolvida na secção de usos avançados.
Ponerse a: entrar numa atividade
Ponerse a destaca o momento em que alguém começa a fazer algo. É frequente quando o início é repentino, uma reação a alguma coisa ou uma decisão de se dedicar à tarefa.
- Al oír la noticia, se puso a llorar. — «Ao ouvir a notícia, começou a chorar.»
- Después de comer, nos pusimos a ordenar la cocina. — «Depois de comer, começámos a arrumar a cozinha.»
O início não tem de ser sempre inesperado. Na segunda frase, pode tratar-se de uma atividade planeada; o importante é a entrada efetiva na ação.
A forma ponerse inclui um pronome, uma palavra curta que acompanha o verbo e se adapta à pessoa. Nesta construção, esse elemento faz parte do verbo: não significa necessariamente que a pessoa faz algo a si própria. No presente, usam-se as seguintes formas:
| Espanhol | Português |
|---|---|
| yo me pongo a estudiar | eu começo a estudar |
| tú te pones a estudiar | tu começas a estudar |
| él / ella / usted se pone a estudiar | ele / ela começa a estudar; o senhor / a senhora começa a estudar |
| nosotros / nosotras nos ponemos a estudiar | nós começamos a estudar |
| vosotros / vosotras os ponéis a estudiar | vós começais a estudar |
| ellos / ellas / ustedes se ponen a estudiar | eles / elas começam a estudar; vocês começam a estudar |
A forma com vosotros é característica de grande parte de Espanha; na maior parte da América hispanófona, usa-se ustedes para o plural de tratamento.
Deber de: formular uma suposição
Deber de permite apresentar uma conclusão provável, sem a afirmar como certeza:
- Debe de estar en casa. — «Ele deve estar em casa.»
- Deben de ser las ocho. — «Devem ser oito horas.»
Em português, a probabilidade exprime-se normalmente com «dever + infinitivo», sem «de». É precisamente por isso que a construção espanhola pode parecer estranha à primeira vista.
Convém distinguir probabilidade e obrigação. Para uma obrigação, a opção recomendada é deber + infinitivo: Debes entregar el formulario hoy — «Deves entregar o formulário hoje». Para uma suposição, deber de torna a leitura explícita. Porém, o espanhol também admite deber sem de com valor de probabilidade; a ausência da preposição não transforma automaticamente uma frase numa ordem.
Llegar a: alcançar um resultado ou um extremo
Llegar a apresenta uma ação como um ponto a que se chegou. Pode sugerir esforço, uma evolução longa, uma situação surpreendente ou um limite extremo.
- Con mucha práctica, llegó a hablar español con soltura. — «Com muita prática, chegou a falar espanhol com desenvoltura.»
- Estaba tan enfadado que llegó a insultarnos. — «Estava tão zangado que chegou a insultar-nos.»
Na primeira frase, «conseguiu falar» pode ser uma boa tradução. Na segunda, «conseguiu insultar-nos» mudaria a perspetiva: não se descreve uma conquista desejada, mas um comportamento que foi longe demais.
A expressão não significa «quase». Em Llegó a publicar tres novelas — «Chegou a publicar três romances» — a publicação aconteceu. Para dizer que algo esteve perto de acontecer, mas não aconteceu, é preciso outra formulação.
Exemplos em contexto
As frases seguintes mostram como a mesma estrutura se adapta a situações familiares, profissionais e narrativas.
| Espanhol | Português | O que observar |
|---|---|---|
| Volvió a llamar, pero nadie contestó. | Voltou a ligar, mas ninguém atendeu. | Nova tentativa. |
| Si vuelve a fallar la conexión, reinicia el equipo. | Se a ligação voltar a falhar, reinicia o equipamento. | Repetição de um problema. |
| Dejó de fumar cuando nació su hija. | Deixou de fumar quando a filha nasceu. | Abandono de um hábito. |
| No hemos dejado de buscar una solución. | Não deixámos de procurar uma solução. | A procura continua. |
| Acabamos de llegar y todavía no hemos abierto las maletas. | Acabámos de chegar e ainda não abrimos as malas. | Passado recente. |
| Acababa de acostarme cuando sonó el teléfono. | Tinha acabado de me deitar quando o telefone tocou. | Ação imediatamente anterior a outra no passado. |
| Al ver la factura, se puso a hacer cuentas. | Ao ver a fatura, começou a fazer contas. | Início como reação a uma situação. |
| Nos pusimos a preparar la cena a las ocho. | Começámos a preparar o jantar às oito. | Entrada numa atividade, sem surpresa obrigatória. |
| Debe de estar en casa: tiene la luz encendida. | Deve estar em casa: tem a luz acesa. | Conclusão baseada num indício. |
| Deben de haber cambiado el horario. | Devem ter mudado o horário. | Suposição sobre uma mudança já ocorrida. |
| Después de varios intentos, llegó a resolver el problema. | Depois de várias tentativas, conseguiu resolver o problema. | Resultado finalmente alcançado. |
| El agua llegó a cubrir la carretera. | A água chegou a cobrir a estrada. | Grau extremo de uma situação. |
Erros frequentes
1. Trocar a preposição por influência do português
- Incorreto: Volvió de llamar.
- Correto: Volvió a llamar. — «Voltou a ligar.»
- Porquê: a repetição exige volver a. Aprender o auxiliar isoladamente não chega: a ligação faz parte da construção.
2. Conjugar também o segundo verbo
- Incorreto: Dejó de fumaba.
- Correto: Dejó de fumar. — «Deixou de fumar.»
- Porquê: o tempo e a pessoa aparecem no auxiliar; a ação principal fica no infinitivo. Não se transpõem para estas estruturas os usos portugueses de infinitivo com terminações pessoais.
3. Esquecer o pronome de ponerse
- Incorreto, para dizer que começámos a rir: Pusimos a reír.
- Correto: Nos pusimos a reír. — «Começámos a rir.»
- Porquê: a construção é ponerse a, com o pronome correspondente à pessoa. Sem ele, perde-se a estrutura pretendida.
4. Usar chegar como tradução automática de conseguir
- Inadequado para dizer que finalmente se conseguiu contactar alguém: Llegué llamar a la oficina.
- Correto: Llegué a llamar a la oficina. — «Cheguei a ligar para o escritório.»
- Mais direto, se o essencial for o êxito: Conseguí llamar a la oficina. — «Consegui ligar para o escritório.»
- Porquê: além de exigir a, llegar a apresenta a ação como um ponto alcançado. Nem toda a ocorrência de «conseguir» em português pede esta perífrase.
5. Interpretar toda a negação de acabar de como passado recente
- Interpretação inadequada: entender No acabo de entenderlo apenas como «Não acabei de o entender agora mesmo».
- Sentido habitual: No acabo de entenderlo. — «Não consigo compreender isso totalmente.»
- Porquê: nesta construção negativa, exprime-se muitas vezes uma dificuldade em atingir compreensão completa. O contexto pesa mais do que a tradução isolada de cada palavra.
6. Usar deber de como modelo de obrigação
- Forma a evitar para uma obrigação inequívoca: Debes de pagar antes del viernes.
- Forma recomendada: Debes pagar antes del viernes. — «Deves pagar antes de sexta-feira.»
- Porquê: embora a forma com de também apareça com sentido de obrigação, é preferível omitir a preposição nessa leitura, sobretudo na escrita cuidada. Para probabilidade, tanto debe de estar como debe estar podem ser válidos.
Notas de uso
São construções correntes, não enfeites formais
Apesar de estarem reunidas aqui num conceito de nível C1, estas perífrases aparecem constantemente em conversas, notícias e mensagens. O nível avançado está sobretudo na escolha e na interpretação dos sentidos, não numa suposta raridade das formas.
Ponerse a costuma dar mais destaque à entrada na ação do que empezar a, «começar a». Não é, porém, uma alternativa obrigatoriamente dramática ou informal. Llegar a também pode surgir tanto num relato familiar como numa análise histórica.
A equivalência com o português depende do contexto
A proximidade entre as línguas ajuda muito com volver a, dejar de e acabar de. Mesmo assim, convém traduzir o sentido da frase inteira. O português «deve estar» pode corresponder a uma suposição espanhola com ou sem de, e «começou a chorar» pode ser mais natural do que «pôs-se a chorar» em determinados contextos.
A posição dos pronomes pode variar
Com muitas perífrases, um pronome que representa o elemento afetado pela ação pode ficar antes do auxiliar ou ligado ao infinitivo:
- Lo volvió a explicar / Volvió a explicarlo. — «Voltou a explicar isso.»
- La acabo de ver / Acabo de verla. — «Acabei de a ver.»
As duas posições mantêm, nestes exemplos, o mesmo sentido. Não se deve colocar o mesmo pronome nos dois lugares ao mesmo tempo. Em Se puso a explicarlo — «Começou a explicar isso» — se pertence a ponerse, enquanto lo representa aquilo que é explicado; não são duplicações.
Para aprofundar
O tempo do auxiliar pode alterar a leitura
Não basta decorar acabar de como «ter acabado de fazer agora». Compare-se:
| Espanhol | Português | Leitura |
|---|---|---|
| Acabo de leer el informe. | Acabei de ler o relatório. | Leitura muito recente. |
| Acababa de leer el informe cuando llegó Ana. | Tinha acabado de ler o relatório quando a Ana chegou. | Anterioridade imediata num relato passado. |
| Ayer acabé de leer el informe. | Ontem terminei de ler o relatório. | Conclusão da leitura. |
| No acabo de ver la diferencia. | Não consigo perceber bem a diferença. | Dificuldade em atingir uma compreensão completa. |
Na terceira frase, acabar de aproxima-se de terminar de, «terminar de». A relação entre tempo verbal, negação e contexto explica a leitura; não existe uma tradução única que sirva para todas as ocorrências.
A probabilidade também pode referir-se ao passado
Para uma suposição sobre algo já ocorrido, usa-se deber de haber + particípio. O particípio é uma forma como salido («saído») ou terminado («terminado»), usada aqui depois de haber para apresentar a ação como anterior.
Debe de haber salido antes de las seis significa «Deve ter saído antes das seis». O falante faz agora uma suposição sobre uma saída passada. A construção distingue-se de uma obrigação não cumprida: Debías haber avisado — «Devias ter avisado» — pode funcionar como censura por a pessoa não ter dado o aviso.
A negação tem alcance próprio
O alcance da negação é, simplesmente, a parte da mensagem que se nega. As diferenças tornam-se claras nestes pares:
- Dejó de trabajar. — «Deixou de trabalhar.» A atividade cessou.
- No dejó de trabajar. — «Não deixou de trabalhar.» A atividade continuou.
- Llegó a conocerla. — «Chegou a conhecê-la.» O encontro ou conhecimento concretizou-se.
- No llegó a conocerla. — «Não chegou a conhecê-la.» Esse ponto não foi atingido.
A última frase não significa que a pessoa «chegou, mas não a conheceu». Nela, llegar não descreve uma chegada física. Do mesmo modo, No volvió a verla — «Não voltou a vê-la» — exclui uma repetição, mas pressupõe normalmente um encontro anterior.
As perífrases podem combinar-se
Uma construção pode aparecer dentro de outra, desde que o conjunto tenha um sentido claro:
- Ha vuelto a dejar de fumar. — «Voltou a deixar de fumar.» A pessoa tinha retomado o hábito e abandonou-o de novo.
- Debe de haber dejado de funcionar. — «Deve ter deixado de funcionar.» Há uma suposição sobre a interrupção do funcionamento.
- Acaba de ponerse a llover. — «Acabou de começar a chover.» O início da chuva é muito recente.
A melhor estratégia é identificar primeiro o verbo que descreve a ação e, depois, acrescentar as camadas de sentido. No segundo exemplo, funcionar é a ação, dejar de marca a interrupção, haber apresenta-a como anterior e deber de marca a suposição.
Nem toda a sequência de verbos é uma perífrase
Uma perífrase funciona como uma unidade de sentido, mas há também sequências em que os verbos mantêm significados independentes. Compare-se Volvió a trabajar — «Voltou a trabalhar» — com Volvió a casa para trabajar — «Voltou para casa para trabalhar».
Na segunda frase, existe uma deslocação real e trabalhar é a finalidade dessa deslocação. Na primeira, a leitura habitual é a retoma do trabalho. Identificar essa diferença evita procurar uma tradução literal de movimento onde o espanhol só está a marcar repetição.
Sugestões de prática
- Conte uma pequena sequência de mudanças. Escolha um hábito ou uma atividade e escreva três frases: quando começou, quando parou e quando foi retomado. Use ponerse a, dejar de e volver a. Depois confira as preposições e os pronomes, não apenas o vocabulário.
- Separe factos e suposições. A partir de um indício, como uma luz acesa ou uma porta fechada, formule uma frase com deber de. Em seguida, escreva uma obrigação com deber sem de. Explique em português por que razão uma frase é uma hipótese e a outra é uma exigência.
- Mude o ponto de referência. Parta de Acabo de llegar — «Acabei de chegar» — e transforme a frase num relato passado com Acababa de llegar cuando… — «Tinha acabado de chegar quando…». Para treinar llegar a, acrescente um resultado efetivamente alcançado e, depois, negue-o com no llegó a.
Conceitos relacionados
- Base para comparar formas verbais: Usos do gerúndio — permite relacionar as perífrases de infinitivo com construções que apresentam uma ação em desenvolvimento, como está trabajando, «está a trabalhar» ou «está trabalhando».